Uma estrangeira no mundo

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

O Evangelho puro e simples de Jesus: sobre a ação social da Igreja e destinação de dízimos e ofertas


Hoje iniciaremos uma nova série neste blog, a Série Evangelho puro e simples. Nessa série de artigos, colocaremos trechos de livros que digam respeito à vivência do cristianismo conforme o ensino de Jesus e dos apóstolos.

Para começar essa série, pegaremos trechos do livro Responsabilidade Social, Serviço e Cidadania à Luz da Igreja Primitiva, de Vanderlei Gianastacio – Editora Vida Nova. Boa leitura e boa semana!

Capítulo 4 – A igreja de hoje e sua ação na sociedade

[...]
Momento atual da ação da igreja na sociedade
Mesmo trabalhando com modelos diferentes, a igreja de Jesus Cristo procura desenvolver seu papel na sociedade. Embora influenciada por tradições religiosas, cristãs ou não, em diversas culturas e regiões do mundo, a igreja constrói seu modelo e desenvolve sua função. É preciso avaliar, porém, se essa função que a igreja desenvolve é suficiente.

[...] A atual posição da igreja, tendente a um espiritualismo irracionalista, como diz Comblin, leva as pessoas a se envolverem apenas com o que se diz “espiritual”, sem questionar e sem agir visando à mudança da estrutura injusta da sociedade.

Não existe ainda um mosteiro protestante na América Latina, mas a mentalidade de mosteiro, essa sim, exite. Há aqueles que sonham em formar “bairros evangélicos” ou sistema de educação nos quais desde o berço até o túmulo o filho de crente seja protegido do mundo. [Samuel Escobar, "A história da salvação e a missão integral da igreja", in: Valdir Steuernagel, A missão da igreja, p. 28] [...]

Jerusalém, um exemplo de comunidade: ministério da palavra e ação social
Antes de analisarmos o ministério da palavra e a ação social para a igreja atual, convém considerarmos o que é comunidade. Edvino Rabuske a define como “um diálogo em que os próprios interesses de cada integrante podem tornar-se objeto duma discussão pública”. Ora, não foi isso que Jesus fez com os discípulos? Assuntos abordados por eles eram explicados por Jesus.

Na igreja em Jerusalém, foi discutido o interesse de cada integrante, mesmo o das viúvas helenistas. A comunidade só pode ser compreendida como tal quando “um interesse pode ser aprovado pelos outros numa comunicação livre e sem repressão, em que todos podem se manifestar; somente nesta medida, este interesse se torna um direito. Pois, então, este interesse não estorva mais o encontro das consciências e a concretização da liberdade”. [Antropologia filosófica, p. 155]

O professor José Furtado lembra uma distinação importante da comunidade em relação à instituição. Para tomar decisões, prevalece na comunidade o amor, e na instituição, a lei dela mesma. Portanto, é o amor que deve motivar o interesse de cada membro para ser ouvido por todos na comunidade cristã.

Se a igreja local tiver inconscientemente suas estruturas ou tradições enrijecidas, pode deixar de viver a comunidade proposta por Jesus Cristo. [...]

Como igreja de Cristo, precisamos estar atentos para o amor na comunidade. É lógico que em qualquer comunidade há algumas leis, pois se assim não fosse ela não funcionaria com ordem e decência. Entretanto, o elemento que deve regê-la é o amor, e não as regras.[...]

Com o conceito de comunidade esclarecido, o próximo passo é analisar a importância da relação existente entre o ministério da palavra e ação social. Entendemos como ação social não o simples assistencialismo, ou seja, entregar uma cesta básica para pessoas carentes. Se as igrejas fizerem apenas isso, as pessoas assistidas se sentirão dependentes. É fato que, dependendo da situação do assistido, a primeira atitude é oferecer alimento. Mas, além disso, o que as igrejas precisam fazer é resgatar a dignidade do ser humano, e para tanto precisam agir. Não apenas repetir ações mecanicamente, mas agir refletidamente.

Esta ação consiste em oferecer o que for possível ao carente com o objetivo de inseri-lo na sociedade, resgatando sua dignidade. Para entender essa dificuldade de ação das igrejas, basta observar como a igreja reage ao anseio de um jovem que deseja voltar a estudar. Ela concorda em ajudar se o estudo for teologia, ou seja, para o ministério pastoral ou missões.

A maioria das igrejas não possui a visão de ajudar alguém a desenvolver suas habilidades em outra área além da eclesiástica por não considerá-la “para Deus”. Esta visão apenas dificulta a ação da igreja no resgate da dignidade do ser humano. [...]

É necessário que as igrejas atuais entendam que a libertação não se dá apenas na esfera espiritual. [...] Significa que as igrejas devem reconsiderar seu conceito de libertação.

Na igreja em Jerusalém, a vida em comum libertava o rico e o pobre, integrando as pessoas que se aproximavam dela enquanto se dava o ministério da palavra (At 2.42-47, 4.32-37). É possível compreender que o ensino da doutrina dos apóstolos ou a evangelização não tinha um fim em si mesmo. Lucas narra, no texto de At 2.42-47, que os cristãos primitivos perseveraram na doutrina dos apóstolos, na comunhão do pão, tinham tudo em comum e a “cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos”.

Como vimos, as pessoas da igreja de Jerusalém chegavam a vender os bens conforme surgiam os necessitados; valorizavam mais as pessoas do que os bens materiais. Por isso essa igreja primitiva se tornou um referencial de justiça social. “Apesar de ser uma instituição imperfeita [...] a Igreja comunicou ao mundo de sua época um estilo de vida radicalmente diferente” (Guilherme Cook, Evangelização é comunicação, p. 13). Quantas viúvas e pobres deixavam de mendigar nas ruas, ou ao redor do Templo de Jerusalém e de outros locais sagrados, graças à ação comunitária da igreja que ali se iniciara.

Enquanto “com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus” (At 4.33) para os não cristãos, na igreja “não havia necessitados” (At 4.34). Ou seja, o testemunho dos apóstolos em relação ao que Jesus ensinara estava relacionado com a prática deles e da igreja à qual pertenciam.

A igreja de Jerusalém viveu o que realmente pregava. O ser humano era mais importante que os bens materiais, o que levou as pessoas da cidade a perceberem, na prática, o amor que estava sendo anunciado. Quando os apóstolos pregavam o evangelho, explicando o amor de Jesus, podiam, com autoridade, demonstrar esse amor na comunidade cristã incipiente, pois não havia necessitados entre eles (At 4.34). [...]

A igreja em Jerusalém nos ensina que, muito mais do que técnicas de evangelização, as igrejas locais atuais precisam viver uma comunhão tal que ela desperte interesse naqueles que não conhecem a Cristo. Pregar o amor de Deus pelo ser humano é fundamental para que todos entendam a obra de Jesus na cruz. Mais ainda, é necessário viver a manifestação desse amor em comunidade, amor ao próximo.

Em sua primeira carta, João afirma que conhecemos o amor quando entendemos que “Cristo deu sua vida por nós; e devemos dar nossas vidas pelos irmãos” (1 Jo 3.16). No versículo 17, João questiona como pode permanecer o amor de Deus em uma pessoa cristã que, vendo o seu irmão passar necessidade, não o ajuda? No versículo 18, ele diz que o amor não consiste em palavras, mas em fato, ou seja, em fazer. Isto é muito claro na igreja em Jerusalém.

Ao ler os textos de crescimento da igreja no livro de Atos, tendemos a olhar apenas para o número de pessoas que se convertiam (v. At 2.41, 47; 5.14), mas não percebemos que o amor prevalecia naquela comunidade, “pois nenhum necessitado havia entre eles” (At 4.34).

Esses valores precisam ser trabalhados nas igrejas atuais. Quando uma igreja local gasta muito de sua energia e finanças na construção de um templo ou na obtenção de algo material, pressupõe-se que não há necessitados entre os irmãos daquela igreja. Se houver pessoas em necessidade, a igreja ainda não terá entendido um princípio fundamental do cristianismo: o amor.

É estranho que as pessoas doem, por exemplo, para construções de templos luxuosos, mas não percebam suas necessidades, ou a do próximo, na própria igreja local. Com a verba empregada em construções muito poderia ser feito para famílias de pessoas desempregadas, que precisam pagar aluguel, conta de luz, água, escola de filhos, comprar remédios etc. Algumas construções que exigem valor alto de manutenção são usadas apenas algumas horas por semana. As construções têm sua importância, desde que todos os membros da igreja estejam supridos.[...]

A prioridade aos necessitados, ou a ação social dentro e fora da igreja, deve constituir a evangelização não falada.

O destino das ofertas
[...] A igreja local, enquanto comunidade, precisa rever seus investimentos e o destino dado a ofertas e dízimos. A igreja precisa estar atenta para não repetir o modelo de distribuição de renda que existe no país, onde 10% da população concentra 90% da renda. As contribuições não podem concentrar-se em algumas pessoas, beneficiando-as em detrimento dos demais.

Tal prática, um pecado social, apenas reproduziria o modelo já existente no mundo. [...] Alguns líderes acreditam que se não tiverem salários altos não conseguirão evangelizar os ricos. Que dizer, então, de Jesus? Se assim pensarmos se poderia dizer que seu trabalho de evangelização foi um fracasso.

Cabe aos líderes cristãos e, portanto, conhecedores da Palavra de Deus analisar a coerência de seus salários quando confrontados com a realidade de suas igrejas, a fim de que possamos ser vistos “servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pe 5.3).

Uma comunidade se compõe de pessoas de todos os níveis sociais, e isso também ocorre nas igrejas. Às vezes a situação dos membros é tão precária que os líderes precisarão repetir o modelo de liderança de Paulo em Éfeso: “vós mesmos sabeis que estas mãos proveram as minhas necessidades e as dos que estavam comigo. Em tudo vos dei exemplo de que, assim, trabalhando, é necessário socorrer os enfermos…” (At 20.34,35).

Numa realidade carente, os líderes da igreja terão que providenciar o próprio sustento, dividindo as atividades eclesiásticas com outros membros, leigos. Por isso é importante que os líderes não possuam apenas formação teológica, pois nesse caso poderá ser muito difícil prover as necessidades da família. [...]

A idéia de que o pastor é o “anjo da igreja” (interpretação errônea de Ap 2,3) ou “o ungido do Senhor, e por isso não pode ser contrariado” são descabidas e, muitas vezes, levam os pastores a se distanciarem das pessoas, assumindo uma posição ao “lado de Deus”. Não há nenhum problema em oferecer algo bom ao líder, se todos na igreja tiverem o mesmo direito. Provavelmente seria mais justo se a remuneração do pastor fosse a média daquilo que os membros da igreja recebem.[...]

Se uma igreja local cria estruturas que beneficiam apenas alguns, e não o próximo, tendo como base uma interpretação errônea da Bíblia, isso não é cristianismo. [...]

Carmen Pérez Camargo afirma que “todo cristão, incluindo os líderes, adote um estilo de vida simples e compartilhe seus bens com os demais” (In: Valdir Steuernagel, A missão da igreja, p. 323; grifo do autor). A igreja não só é apática à mutualidade como muitas vezes também “vive num gueto, ignorante das angústias do mundo e não percebe que a falta de pertinência de sua mensagem tem fechado os corações de muitos à verdade do evangelho” (Guilherme Cook, Evangelização é comunicação, p. 15).

A igreja brasileira deve, portanto, atentar para a questão do numerário e direcioná-lo adequadamente. Com isso, ela também demonstra o amor de Jesus. Tampouco devemos cometer o erro de ajudar apenas aqueles que se convertem ao cristianismo, pois significaria barganha do evangelho. A igreja deve ajudar por amor, sem negociar o evangelho.

VOLTEMOS AO EVANGELHO PURO E SIMPLES,
O $HOW TEM QUE PARAR!

2 comentários em “O Evangelho puro e simples de Jesus: sobre a ação social da Igreja e destinação de dízimos e ofertas

  1. silver account
    13/07/2012

    Nós somos enviados ao mundo, como Jesus, para servir. Porque isto é a expressão natural de nosso amor aos nossos próximos. Nós amamos. Nós vamos. Nós servimos. E nisto não temos (ou não deveríamos ter) nenhum motivo escondido. É verdade, o evangelho carece de visibilidade se meramente o pregamos, e carece de credibilidade se nós, que o pregamos, estamos interessados somente nas almas, e não temos interesse sobre o bem-estar dos corpos, situações e comunidades das pessoas. Todavia, a razão de nossa aceitação da responsabilidade social não é para dar primariamente ao evangelho uma visibilidade, nem uma credibilidade, nem mesmo para suprir alguma outra carência; mas, ao invés disso, para simplesmente demonstrar uma compaixão genuína. O amor não precisa se justificar. Ele meramente se expressa no serviço, não importa quando ele se mostre necessário.

  2. Eliézer Korevaar
    20/07/2013

    Parabéns pelo blog, gostei muito do que li por aqui!

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