Uma estrangeira no mundo

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

Aprofundando a “nova Reforma Protestante”


Por Ricardo Alexandre

Semana passada eu colaborei com a revista Época, edição nacional, com a reportagem de capa “A nova reforma protestante”. Foram nove meses para apurar, escrever, pautar fotos e editar sob condições de trabalho que raramente temos nessa profissão. Em termos de repercussão e alcance, talvez seja o trabalho mais importantes nos meus 17 anos de carreira. E também o que envolveu a maior quantidade de sentimentos e convicções pessoais e profissionais.

Evidentemente, apesar do espaço ocupado (nove páginas), a reportagem era só uma introdução a um tema sem fim, a saber: há uma movimentação entre igrejas e movimentos evangélicos que dialoga com o público mais esclarecido leitor da Época e que não só não se parece com o tipo de “gospel” que ele vê nas páginas policiais como o rechaça tanto quanto o nosso leitor. Que esse movimento, no fundo, é mais uma tentativa de recuperar a “igreja” a qual Jesus Cristo se referia em Mateus 16:18, daí o título – “nova reforma protestante”, sem pretensões de cunhar nenhum termo realmente. Para quem ainda não leu a reportagem, o link oficial é este aqui, mas um monte de gente reproduziu o texto na íntegra, como o Pavablog (Parte 1, Parte 2 e Parte 3).

Fiquei muito feliz e grato a Deus pela forma com que o espírito da reportagem foi bem compreendido. A própria página de comentários do site da Época se transformou em palco de discussões muito lúcidas e inteligentes. Confira aqui.

E achei muito bacana que o texto tenha dado origem a discussões importantes em outros fóruns. Abaixo, peço licença para fazer uma pequena lista dos que mais me chamaram a atenção:

» Augustus Nicodemus Lopes, a quem respeito e admiro enormemente, usou da reportagem para aprofundar a discussão sobre o liberalismo teológico em seu blog O Tempora! O Mores!

» Paulo Siqueira, do site As Pedras Clamam, fez uma excelente prospecção do texto à luz do pentecostalismo. Ele toca em um ponto para o qual eu nunca havia atentado: a falta de uma teologia pentecostal. Seu texto está aqui.

» Quem se interessa por design e jornalismo, eu recomendaria este post do blog Faz Caber explicando como a capa da revista foi concebida.

» Um das críticas mais comuns feitos pelos irmãos pentecostais é que eu teria pegado pesado demais em definir a visão neopentecostal do dízimo. No texto, eu disse que o discurso de igrejas adeptas da teologia da prosperidade é que a fidelidade do crente é usada pelo fiel na esperança de constranger Deus a resolver seus problemas pessoais. “Ninguém pode constranger a Deus!”, várias pessoas me escreveram dizendo. Bem, não fui eu quem disse isso, foi o Edir Macedo. Veja com seus próprios olhos: “Se nós fizermos nossa parte num pacto com Deus, passamos a ter o direito de cobrar dEle Suas Promessas. E Ele, por sua vez, fica obrigado a cumprir a parte dEle.”

» O bispo anglicano dom Robinson Cavalcanti escreveu uma carta muito interessante dizendo-se “deslocado” do contexto da reportagem. Ele tem razão: a versão original do texto, muito maior, tinha outras aspas do bispo em contextos mais adequados, como o papel da igreja protestante na política brasileira. Na edição final, ele acabou entrando em um contexto que pode sugerir que ele, que não tem nada a ver com todo aquele papo de “desinstitucionalização” estivesse contrariando seus princípios. Ele escreveu um comunicado no site da sua Diocese e nós o publicamos na última seção de Cartas da revista.

» Evidentemente, como bem notou o Caio Fábio, o texto não defende em nenhum momento o fim das denominações tradicionais ou a destruição das igrejas instituídas. Minha intenção era mostrar que alguns movimentos mais alternativos estão, pela primeira vez, sendo analisados com seriedade pelas igrejas históricas e muitas de suas lições estão sendo debatidas e, eventualmente, assimiladas. O pastor Miguel Uchoa, também da Diocese do Recife da Igreja Anglicana publicou um post muito interessante e equilibrado sobre isso.

» Bem, e falando em Caio Fábio, no vídeo abaixo, o pastor diz que a reportagem não tem nada de novo e mostra “todo o seu carinho” aos pastores entrevistados por mim. Você pode tirar suas próprias conclusões, mas não pode deixar comentários na página do Youtube:

» No dia seguinte, ele postou novo vídeo, talvez para se fazer entender melhor. Chamou todo mundo de “bundão” outra vez:

» Por último, gostaria de fazer um esclarecimento e uma correção. O esclarecimento é que, ao contrário do que o Caio sugere, eu não congrego em nenhuma das comunidades citadas na reportagem e nunca havia sequer conversado com nenhum dos pastores antes de começar a reportagem. Muito menos recebi a pauta por encomenda. Foi uma idéia minha que eu apresentei à Época no final do ano passado e que assumi com a condição de não ter data para entregar – e a própria pauta mudou algumas vezes durante a apuração, como deve ser durante um trabalho de apuração honesto. Desculpe se isso soa arrogante, mas eu jamais faria um trabalho nas condições de isenção e ética discutíveis como as que o reverendo sugere.

» A correção que eu gostaria de fazer já foi publicada na edição 639 que está nas bancas, mas vale aprofundar aqui: há um erro de informação histórica naquele quadro “Redenção e rupturas” que tenta explicar graficamente a história e os principais grupos cristãos. Fui frustrado na tentativa de sintetizar a frase original, que falava da conversão de Constantino e da oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano, feita por Teodósio em 380 dC. O que Constantino fez, convertido ao cristianismo do jeito dele, foi garantir a liberdade religiosa e revogar o culto imperial como religião oficial. Evidentemente, ele lançou as bases de prática cristã que seriam oficializadas algumas décadas depois, mas a informação editada estava mesmo errada. Fui cortando e cortando até caber no lay-out e o texto ficou com o nome de um e a data do outro. Milhões de perdões e obrigado pelas dezenas de pessoas que escreveram notando o vacilo.

Fonte: Blog Causa Própria
Via: Pavablog

4 comentários em “Aprofundando a “nova Reforma Protestante”

  1. diego marcell
    19/08/2010

    gostei da explicação do autor da matéria.
    talvez sua falha, numa obrigação de optar por algumas enfases, tenha feito em demasia em pessoas não muito direcionadas no assunto, mas de respaldo maior.

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  2. josé vicente
    22/08/2010

    Há um a passagem bíblica onde Deus cahama o seu povo de obtuso. Uma pessoa obtusa tem dificuldade de entender uma determinada coisa, por mais que ela seja clara.
    Em outras passagens Deus chama seu povo de recalcitrante; o significado de recalcitrante é “extremamente teimoso”.
    Pelo que vejo tudo continua do mesmo jeito; nós, crentes, somos mesmo obtusos. Se não fossemos, não haveria tantos “pastores” milionários às nossas custas. Sabem porque eles existem? Porque nós insistimos em acreditar no homem, em seguir o homem, em acreditar em promessas vãs, em fazer da carne a nossa força.
    Só aqui no nós temos, pelo menos, uns 50 pregadores que vivem de iludir as ovelhas, e as ovelhas, pelo visto, adoram ser iludidas.
    Depois de Silas, Cerullo, Murdock, Edir, RR e outros, eis que ressurge das cinzas, Caio Fabio.
    Pra mim, o Caio assumiu o papel de um pretenso guru “gospel”, com discursos cheios de vazio, com muita fala e nenhuma ação. A exemplo de Michael Jackson, ele criou um mundo à parte e vive nele como se fosse um rei, e é tão vaidoso quantos os outros, que são seus desafetos.
    Quem realmente quer que Jesus Cristo seja o seu caminho não faz propaganda disso; simplesmente segue o caminho.
    O evangelho não precisa de mais personagens do que os que já tem, e nós, todos nós, precisamos pedir perdão a Deus por alimentar a megalomania destas pessoas.
    TEMOS QUE FALAR UNICA E EXCLUSIVAMENTE DE JESUS CRISTO!
    a ELE TODA A HONRA E TODO O LOUVOR!

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  3. josé vicente
    06/12/2010

    O CASO KAKÁ
    Na revista Veja desta semana há uma matéria sobre a saída do jogador Kaká e sua esposa, da igreja Renascer.
    Este acontecimento é emblemático. Todos nós conhecemos o caráter e a honradez do Kaká mesmo sem conhecê-lo, já que nos dias de hoje um atleta rico, bonito e famoso só fica longe das colunas de fofocas se realmente levar uma vida exemplar.
    Quando uma pessoa com um perfil desses rompe com uma igreja é porque algo de muito grave aconteceu. Nenhuma das partes quis entrar em detalhes, mas as notícias dão conta de que o motivo foi o descontentamento de Kaká com o destino que é dado ao dinheiro dos dízimos e das ofertas.
    Ora, a igreja Renascer é neo-pentecostal, e nessas igrejas o mais importante de tudo é ser dizimistas fiel. Segundo a doutrina da prosperidade o dizimista fiel não é atingido por mal nenhum, não fica doente, etc.; mas caso o dizimista fique doente(obra de satanás, segundo eles), logo aparece alguém para orar e “profetizar” a cura da vítima, perdão, do dizimista. A profetada de cura, na maioria das vezes, é feita direto do púlpito, em meio a imensa gritaria.
    Sabe-se que Kaká não exerce sua profissão há vários meses em decorrencia de seguidas lesões. Como ele é um dizimista fiel da igreja Renascer e seu dízimo é milionário, ele não poderia, à luz da doutrina da prosperidade, estar passando por um problema tão grave.
    As profetadas para sua cura devem ter sido as mais variadas e provavelmente diárias, mas o problema persiste até hoje.
    A Bíblia nos alerta: Não faça da carne o seu braço. Seja fiel a Deus e não ao homem ou a uma igreja. Não acredite quando lhe disserem: Deus mandou lhe dizer que amanhã você estará curado. Não acredite em gritaria ou em fogo de mentira, ou em santidade aparente.
    Se Deus, e somente Deus permitir, Kaká ficará curado e voltará a jogar futebol. Mas o melhor de tudo é que ele livrou-se de uma armadilha.

    Nestas igrejas, o chamado “dizimista fiel” é alvo de promessas diárias. Tem sempre alguem dizendo que Deus mandou lhe dizer algo, sem que Deus, na verdade, não mandou dizer nada a você.

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  4. Arnito Steffens
    11/01/2011

    Dela saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido; ouçam a ele! ”
    Lucas 9:35
    Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria.2 Coríntios 9:7
    É isso mesmo irmão José, temos que voltar a simplicidade do evangelho pregado pela igreja primitiva que seguia a vóz do Espírito Santo.
    O dízimo tem sido uma INDULGÊNCIA nos dias de hoje e que o Senhor nos ajude a andarmos em caminhos retos agradando a Ele somente e não a homens que são inimigos da cruz de Cristo, que o Senhor nos livre disso , a Graça seja com todos os que amam o Senhor sinceramente.

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