Uma estrangeira no mundo

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

Algumas considerações sobre a condução coercitiva de Silas Malafaia


497861156-pastor-silas-malafaia-grava-video-indignado-por-ser-alvo-de-conducao-coercitiva-em-acao-da-policia-fOntem, a imprensa noticiou uma etapa da Operação Timóteo, da Polícia Federal, que investiga “um esquema de corrupção em cobranças judiciais de royalties da exploração mineral”. […] “O diretor do Departamento Nacional de Produção Mineral, Marco Antonio Valadares Moreira, e a mulher dele foram presos pela PF.” (fonte: O Estado de São Paulo). Até aí, mais uma operação contra a corrupção no país. Porém, o (im)Pastor Silas Malafaia também foi alvo, através de um mandato de condução coercitiva.

O Canal Ciências Criminais traz uma boa definição do que é condução coercitiva:

“[…]’é um instrumento de restrição temporária da liberdade conferido à autoridade judicial para fazer comparecer aquele que injustificadamente desatendeu à intimação e cuja presença seja essencial para o curso da persecução penal, seja na fase do inquérito policial, seja na da ação penal.’ (Desembargador Cândido Ribeiro MEDIDA CAUTELAR CRIMINAL (BusApr) 0042276-27.2013.4.01.0000/DF.g.n.)

Além do conceito, é importante também ressaltar os requisitos para a condução coercitiva:

  • Intimação/comunicação regular para comparecimento ao ato
  • Recusa injustificada de quem foi intimado e não compareceu ao ato.”

Assim posto, vamos aos fatos:

Na manhã do dia 16/12 a Polícia Federal foi à busca de Silas Malafaia para conduzi-lo coercitivamente para depor a respeito de uma oferta que teria recebido a cerca de dois anos, de um dos envolvidos na investigação. Malafaia, que estava em São Paulo (por conta da inauguração da filial de sua igreja – vide artigo anterior), imediatamente lançou um áudio e posteriormente um vídeo explicando a situação: anos atrás, “orou” por um advogado, membro endinheirado do seu colega, pr. Michel Abud da igreja Embaixada do Reino de Deus. Então, há uns 2 anos, esse advogado entregou uma “oferta pessoal” de cem mil reais para Malafaia. Essa oferta em forma de cheque foi depositada na conta conjunta do (im)Pastor e sua esposa, e segundo ele, declarada em seu Imposto de Renda. A tal condução coercitiva seria uma forma do Poder Judiciário o intimidar, já que estaria “batendo forte” sobre a questão de abuso de autoridade.

Algumas considerações:

Em primeiro lugar, realmente não é muito compreensível o juiz ter emitido o mandato de condução coercitiva nesse caso. Afinal, segundo Malafaia, ele não foi intimado anteriormente e, se o fosse, não se recusaria a depor. Ao contrário do que aconteceu com o ex-presidente Lula, que se recusou a depor e por isso foi conduzido coercitivamente. Porém, de forma obrigatória ou de forma voluntária, a intimação ao depoimento atrairia de qualquer forma toda a atenção da imprensa, pois Malafaia é uma pessoa pública e bastante controversa, devido ao seu império eclesiástico e suas declarações, além do grande envolvimento na política.

Em segundo lugar, chama a atenção a rapidez com que Malafaia lançou sua defesa por áudio e vídeo. Enquanto a Polícia Federal fazia buscas em sua residência no RJ, Malafaia explicava, via áudio, os pormenores da oferta recebida há 2 anos. Ora, esse (im)pastor, pelo negócio que administra, deve receber muitas, mas muitas ofertas de todos os valores possíveis. Assim, como foi possível se lembrar especificamente da oferta objeto de investigação? Teria alguém infiltrado na PF ou no Judiciário, que lhe passaria informações privilegiadas? Teria recebido essa oferta ciente de sua proveniência duvidosa? Teria sido alertado profeticamente do problema que iria acontecer?

Sinceramente, não sei. Só sei que é muito suspeito alguém se defender imediatamente de uma coisa que aconteceu há muito tempo e da qual acaba de ter conhecimento.

Só lembrando, durante anos, enquando o PT ainda governava o Brasil, Malafaia volta e meia alertava a seus fiéis de que os “esquerdopatas” (como ele se refere aos petistas) estariam armando alguma armadilha ou mentira para denegrir sua imagem. É irônico que sua “profecia” tenha se realizado justamente após a queda do PT, em pleno governo PMDB, dos seus amigos Eduardo Cunha e Michel Temer.

Em terceiro lugar, a questão da “oferta pessoal”. Que um pastor, um padre, um funcionário público, um bancário, recebam, no exercício de sua função, algum presente, sem problemas. Mas quando o presente é da ordem de cem mil (o valor do tal cheque), ou um Mercedes E500 blindado na Alemanha, a situação passa a ser no mínimo constrangedora, quando não claramente corruptível.

Ou um funcionário público teria coragem de multar alguém que lhe presenteou com cem mil reais? E como um pastor pode exortar alguém que lhe dá cem mil reais?

Não à toa, vemos o réu preso Eduardo Cunha como membro da Igreja Assembleia de Deus no Brás, e vemos esse tal advogado Jader como membro da Embaixada do Reino de Deus. E quantos outros Cunhas e Jaders não existem nas igrejas, posando de bons e generosos moços, comprando seus líderes eclesiásticos com muito dinheiro, achando que assim compram, também, o perdão de sua iniquidade e a salvação eterna (sem ter que deixar a corrupção para isso)?

E o que dizer desses (im)pastores, que pensam que podem vender o perdão e a salvação eterna, desfrutando do dinheiro de quem os possa corromper?

O funcionário público, quando recebe um presente de grandes proporções, precisa recusá-lo veementemente ou, na impossibilidade disso, doá-lo para alguma entidade. Mas Malafaia acha que não precisa fazer isso, que não precisa se desfazer do dinheiro em prol de missões ou de entidades que cuidam de pessoas, afinal ele é filho do rei, é cabeça e não cauda, veio para vencer e prosperar e todo esse blablablá da demoníaca Teologia da Prosperidade da qual tornou-se grande divulgador. Eis que começa a colher os frutos de sua imprudência e ganância.

Um adendo: quando ainda tentava salvar sua pele, a ex-presidente Dilma promulgou uma lei que anistiou os pastores e outros líderes religiosos de multas que teriam, junto à Receita Federal, por erros em suas declarações de renda pessoais. Além disso, isentou-os totalmente a partir de então (antes a isenção era só para as contas das instituições religiosas). Silas Malafaia, nessa história, foi anistiado em 1,5 milhão de reais. Ou seja, muuuuito dinheiro, talvez de “ofertas pessoais”, havia sido “canetado” até então. E após isso, pode cair quantas “ofertas pessoais” quiser em sua conta, que nada será tributado junto à Receita Federal.

Não sei porque, mas lembrei que tenho que fazer lavagem… de algumas roupas, aproveitando o dia de sol.

Por fim, fica o recado dado pela Operação Timóteo (baseada na carta a Timóteo, capítulo 6):

“Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína.
Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.
Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.” – 1 Timóteo 6:9-11

Faixa vista por Malafaia nas Marchas para Jesus no Rio. Infelizmente, ele não pode dizer que não foi avisado.

Faixa vista por Malafaia nas Marchas para Jesus no Rio. Infelizmente, ele não pode dizer que não foi avisado.

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Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

 

 

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5 comentários em “Algumas considerações sobre a condução coercitiva de Silas Malafaia

  1. Marcos (Cadeirante)
    17/12/2016

    Se as igrejas não entendem os escritos da Bíblia a Polícia Federal entendeu corretamente o significado dela.

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  2. elbert
    21/12/2016

    Esse fato me lembou o caso de Elizeu que curou Naamã. Naamã ofeceu dinheiro para Elizeu por ter recebido o milagre, e o mesmo prontamente recusou. No caso do Silas, o tal ofertante havia recebido um “milagre” e ofereceu a oferta de 100 mil ao Silas. Geazi que era o aprendiz de Elizeu não recusou a oferta, porém recebeu a lepra de Naamã. Acho que essa passagem nos ensina muita coisa sobre dinheiro.

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  3. Claudio Nossa
    31/12/2016

    Primeiro, devo dizer que a condução coercitiva deve se submeter a lei, tanto para o Lula como para o Silas, aliás, o próprio ex-presidente em sua primeira manifestação sobre a sua condução disse: qual a razão de não ter sido intimado antes? Se a lei não se aplica ao Lula, como se aplicará ao homem comum? O que a população não enxerga é que os direitos individuais estão sendo suprimidos.
    Segundo, o Silas, parecer ter um belo álibi, ficou muito mais caracterizado para mim que a oferta é um pagamento pela pena que o pastor carrega. Pena? Para escrever… se bem que no caso dele é para falar mesmo, seria bom lembrar o Pr. Caio Fábio Júnior e as acusações feitas contra o Silas, a qual consiste em receber dinheiro em troca de discursos.

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  4. Eduardo Jose Monteiro
    24/02/2017

    sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
    Polícia Federal indicia Malafaia por corrupção
    A suprema ironia é que Malafaia ajudou a derrubar o governo do PT e o governo que ele colocou no lugar de seus inimigos terminou por indiciá-lo no crime de corrupção.

    A informação foi publicada em 23/02/17 na revista IstoÉ:

    Até tu, paladino da ética?

    O pastor Silas Malafaia é indiciado pela Polícia Federal por ter participado de esquema de corrupção ligado a royalties da mineração

    Silas Lima Malafaia “se locupletou com valores de origem ilícita”. Com esse contundente despacho, a Polícia Federal – em relatório de conclusão de inquérito obtido com exclusividade por ISTOÉ – indiciou o pastor da Assembleia de Deus por lavagem de dinheiro e participação num esquema de corrupção ligado a royalties da mineração.

    Em 16 de dezembro, Malafaia havia sido alvo de condução coercitiva pela Operação Timóteo. O nome da operação se baseia em um dos livros do Novo Testamento da Bíblia, a primeira epístola a Timóteo. No capítulo 6, versículos 9-10, está escrito: “Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”. A Polícia Federal transcreveu o trecho na representação judicial que deu origem à operação. Pelo visto, para o delegado Leo Garrido de Salles Meira, autor do indiciamento, Silas Malafaia caiu em tentação. Agora, o pastor, proverbial arauto da moral e dos bons costumes, terá de explicar aos seus fiéis seguidores porque se dobrou aos pecados da carne.

    A investigação detectou que um cheque do escritório de advocacia de Jader Pazinato, no valor de R$ 100 mil, foi depositado na conta de Malafaia. Pazinato, segundo a PF, teria recebido recursos ilícitos desviados de prefeituras e repassado propina, por isso também foi indiciado por corrupção ativa e peculato. O indiciamento significa que a autoridade policial encontrou elementos para caracterizar a ocorrência de crimes. Além de Malafaia, a PF indiciou outros 49 investigados, dentre eles o ex-diretor do DNPM Marco Antônio Valadares e Alberto Jatene, filho do governador do Pará, Simão Jatene.

    Em entrevista concedida após sua condução coercitiva, Malafaia argumentou que um colega de outra igreja apresentou-o a um empresário que queria lhe fazer “uma oferta pessoal”, depositada em sua conta. “Não sou bandido, não tô envolvido com corrupção, não sou ladrão”, declarou à época. Procurado, o advogado de Pazinato, Daniel Gerber, preferiu não comentar.

    Ex-dirigente do DNPM, Marco Antônio Valadares foi indiciado como líder da organização criminosa, acusado de corrupção passiva e peculato, dentre outros crimes. Seu advogado, Fernando Brasil, nega o envolvimento com corrupção. “Ele foi vítima de um relatório fantasioso, baseado na divergência de valores entre o seu salário e a aquisição de um imóvel”, disse. O episódio envolvendo Alberto Jatene também chamou a atenção dos investigadores. Assessor jurídico do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas dos Municípios do Pará, ele recebeu R$ 750 mil de Pazinato nas contas de suas empresas. Para o delegado Leo Garrido, o pagamento foi efetuado por que o cargo ocupado por ele poderia render “facilidades” ao grupo criminoso. Com base nesses elementos, a PF indiciou Alberto Jatene por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

    Organização criminosa

    Segundo o relatório da PF, contratos fraudulentos com prefeituras eram usados para desviar recursos de arrecadação da mineração. Para isso, eram usadas empresas e escritórios de advocacia. “Considerando toda a engrenagem criminosa, com estrutura ordenada que passa por quatro etapas distintas – da captação dos contratos até o branqueamento dos valores – tendo os personagens de cada uma delas funções específicas, concluímos que são fartos os indícios da existência de verdadeira ORCRIM (organização criminosa), responsável pelo desvio de pelo menos R$ 66 milhões”, escreveu o delegado. Outra associação religiosa, a Igreja Embaixada do Reino de Deus, também recebeu valores de Pazinato: R$ 1,7 milhão, segundo a PF.

    O relatório policial foi enviado ao Ministério Público Federal. A partir dele, caberá ao procurador Anselmo Lopes decidir se apresenta ou não denúncia à Justiça. Um fato novo no decorrer das investigações, porém, vai tornar mais lento o seu desfecho. O inquérito foi enviado ao Superior Tribunal de Justiça por indícios do envolvimento de autoridades com foro privilegiado. Foram detectados pagamentos do grupo criminoso a familiares do conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios do Pará, Aloísio Chaves, que os investigadores suspeitam terem relação com autorizações obtidas no tribunal. Os parentes de Aloísio foram indiciados. Como conselheiros de tribunais de contas têm foro privilegiado, o caso subiu para a corte especial do STJ. Os autos chegaram no dia 17 de janeiro e foram distribuídos ao ministro Raul Araújo. As investigações, agora, ficam a cargo do vice-procurador geral da República, Bonifácio de Andrada.

    A raiz de todos os males

    A PF usou passagens bíblicas para dizer que o pastor Silas Malafaia “caiu em tentação” ao se locupletar de dinheiro ilícito

    A trama
    A Polícia Federal indiciou 50 pessoas por envolvimento em um esquema de corrupção e desvios de impostos sobre mineração, cujos valores envolvidos somam ao menos R$ 66 milhões. O caso foi batizado de Operação Timóteo

    Silas Malafaia
    Pastor foi indiciado por lavagem de dinheiro por ter recebido R$ 100 mil de um escritório de advocacia que estava no centro do esquema de corrupção

    Marco Antônio Valadares Moreira (ex-diretor do DNPM)
    Responde por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro. É considerado o líder da organização criminosa

    Alberto Jatene (filho do governador do Pará Simão Jatene)
    Foi incluído no relatório da PF por corrupção passiva e organização criminosa. Recebeu R$ 750 mil de um dos escritórios envolvidos

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  5. Eduardo Jose Monteiro
    24/02/2017

    informaçao do blog http://ocontornodasombra.blogspot.com.br/. O Contorno da Sombra..

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