Uma estrangeira no mundo

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

10 anos proclamando que o $how tem que parar: o que mudou na relação mundo-igreja evangélica entre 2009 e 2019


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Essa foi a primeira faixa estendida numa Marcha para Jesus pelo MEEB – Movimento pela Ética Evangélica Brasileira. Isso ocorreu em 2009, há 10 anos. Naquela época, clamávamos pela volta da Igreja ao ensino do Evangelho puro e simples de Jesus, pois estávamos imersos em ensinos heréticos (especialmente ligados à Teologia da Prosperidade) e nos conluios com políticos com o fim de conseguir benefícios para os líderes e suas instituições religiosas.

Não, não estou descrevendo resumidamente 2019. Estou descrevendo o contexto de 2009 mesmo. Veja:

Em 2009 vivíamos o penúltimo ano do segundo mandato do Presidente Lula. Como não poderia se reeleger, o político já indicava sua sucessora, a então Ministra Dilma Rousseff. Mas antes de continuar, voltemos um pouquinho mais no tempo.

Em 2002, Luis Inácio Lula da Silva finalmente conquistou a Presidência do Brasil. Desde a abertura política, o político tentava se eleger sem sucesso, também pela pecha de “baderneiro”, “comunista” e outras expressões do tipo que seus adversários lhe impunham. Perdeu as eleições para o Collor e posteriormente para o Fernando Henrique Cardoso. Os líderes evangélicos o definiam como “filho do diabo” e, pelo medo, levaram seus fiéis a não votarem nele nessas ocasiões.

Porém, em 2002 a situação mudou. Lula filho do diabo passou a ser o Lulinha paz e amor. Talvez por inspiração divina, talvez por ver que dessa vez ele tinha reais chances de vitória (eu particularmente aposto mais nessa hipótese), as grandes lideranças evangélicas deixaram de acreditar no viés baderneiro e comunista do candidato e lhe deram aberto apoio. E suas ovelhas, agora, já não tinham medo do barbudo e depositaram seu voto no indicado pelos representantes de “deus” na terra.

Para melhor exemplificar, eis um trecho de matéria veiculada no portal Uol Notícias (https://noticias.uol.com.br/inter/reuters/2002/10/17/ult27u27501.jhtm):

[…] Em um concorrido evento numa churrascaria na zona norte do Rio de Janeiro, que reuniu cerca de 900 pessoas, Lula obteve o apoio de representantes de várias igrejas, incluindo a Metodista, Batista, Sara Nossa Terra, Igreja Universal e pastores da Assembléia de Deus, que não seguiram a decisão das duas principais convenções da igreja de apoiar Serra. Ao discursar para a platéia de evangélicos, Lula recorreu a imagens bíblicas para rechaçar a campanha do adversário, que insiste na tese do medo para desconstruir sua candidatura às vésperas do segundo turno das eleições.

‘A gente não tem que ter medo, a gente tem que votar com consciência, porque se a gente permitir que prevaleça a teoria do medo, a gente vai voltar milhares de anos atrás, quando Herodes, por medo do novo, queria matar todas as crianças à procura de Jesus Cristo,’ disse Lula.

[…] O pastor Silas Malafaia, presidente do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos, que congrega mais de 10 mil pastores, também refutou a teoria do medo.

Lula disse estar convicto de que vencerá as eleições “sem atacar o adversário” nem falar mal do governo. E notou que pretende contar com a ajuda dos evangélicos para atacar os problemas sociais do país.

Então, em 2002 os líderes evangélicos deixaram de enxergar o demônio no PT, e isso perdurou durante os dois mandatos de Lula e também durante o governo Dilma. A exceção fica com Silas Malafaia, que não apoiou Dilma, preferindo apoiar o adversário Serra. Mas durante 8 anos também esse pastor viu em Lula a “paz e o amor” divinos.

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Agora pulemos novamente para 2009. Lula está com o “ibope” em alta e querendo fazer sua sucessora. E os líderes evangélicos querem se manter próximos ao poder e vêem que, pela popularidade de Lula, são grandes as chances de Dilma se eleger. Juntando a fome de poder de Lula com a vontade de comer os manjares da terra dos líderes evangélicos, obviamente que “deus” continuou aconselhando seus representantes a indicar o voto das ovelhas em Dilma Rousseff.

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Assim, vemos em 2009 toda a Cambada Evangélica (ops, ato falho!?) seguindo as instruções divinas e apoiando Dilma. Para “fortalecer” essa aliança, o ainda Presidente Lula instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus, atendendo a um anseio das lideranças gospel, especialmente do casal Estevam e Sônia Hernandes, donos da Igreja Renascer em Cristo. Coincidentemente, meses antes o casal aportou no Brasil após quase 3 anos de reclusão (prisão mesmo) nos Estados Unidos por tentarem entrar com dólares não declarados, escondidos até numa Bíblia (alguma unção financeira nova?).

Se fôssemos um país sério, com evangélicos sérios, com conversões sérias, tal casal voltaria para o Brasil envergonhado, entristecido, contristado, arrependido de suas más ações, e ficariam, no mínimo, “em disciplina” em sua denominação para evitar mais escândalo. Mas como somos o Brasil, eles voltaram com toda a pompa e circunstância, esnobando a tudo e a todos, fazendo conchavos políticos com os petistas e anunciando que em novembro daquele ano São Paulo teria a “maior Marcha para Jesus de toda a sua história” (a propósito, tal Marcha é marca registrada desse casal).

E Lula, querendo o voto dos frequentadores da Renascer e dos demais marchantes de outras igrejas, fez o agrado ao casal e decretou a data tão importante (fonte: Estadão – https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,lula-institui-dia-da-marcha-para-jesus,429197).

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta quinta-feira, 3, o projeto de lei que institui o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Participaram da cerimônia, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o presidente da Câmara, Michel Temer, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, estavam presentes no evento.

[…] A solenidade contou com a participação de representantes de várias igrejas evangélicas, inclusive dos bispos Estevam e Sônia Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo. O casal voltou ao Brasil no começo de agosto, depois de um período de dois anos e seis meses de prisão e liberdade condicional nos Estados Unidos. Eles foram condenados após tentar entrar no país com US$ 56 mil não declarados.

[…] Antes do início da cerimônia, Estevam Hernandes fez questão de puxar uma oração pela saúde da ministra Dilma, que deu entrevista nesta quinta-feira dizendo que está curada do câncer linfático. Dilma é a candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência em 2010.”

Pela alegria das fotos, parece que os líderes evangélicos estão juntos com enviados do diabo?

Mas enfim, em novembro de 2009 ocorreu a tão esperada Marcha para Jesus, os líderes evangélicos e os políticos puderam desfilar no alto dos carros-alegóricos, foi dito que “o Brasil será do Senhor Jesus blablablá”, o povo acreditou neles e votou na candidata indicada, Dilma Rousseff levou as eleições e os líderes evangélicos continuaram apoiando-a enquanto lhes foi conveniente.

A conveniência acabou logo após Dilma conquistar seu segundo mandato e entrar em guerra com o antigo aliado Eduardo Cunha, Presidente evangélico e corrupto da Câmara dos Deputados que, por seu cargo, pode instaurar uma série de pautas-bomba que aceleraram a queda da Presidente. Os líderes evangélicos então pularam para o barco do então Vice Michel Temer, através da Cambada Evangélica ajudaram no Impeachment de Rousseff e apoiaram o novo Presidente Temer até o final do mandato de forma menos ostensiva, pois já estavam articulando para apoiar a nova indicação do “deus” deles, o então candidato Jair Messias (seria um sinal?) Bolsonaro.

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E chegamos em 2018/2019, quando vemos uma reprise de 2009 só que com outros personagens, ou seja:

As lideranças evangélicas recebem “direção de deus” para apoiar Jair Bolsonaro para a Presidência, seus adversários se tornam filhos do diabo (especialmente o adversário do 2o. turno, Fernando Haddad), o antigo aliado Lula volta a virar filho do diabo (pois está preso e não pode mais trazer benefícios), o rebanho gospel acredita em tudo (pois não tem a menor lembrança do que comeu no café da manhã, quiçá dos fatos que aconteceram 10 anos atrás), o Presidente Bolsonaro toma atitudes polêmicas mas é tolerado cegamente (afinal, confirmou presença no carro-alegórico da Marcha para Jesus, a versão 2019 do ato de Lula de decretar o Dia da Marcha para Jesus em 2009), os conchavos e conluios entre os governos e as igrejas evangélicas se mantém (por exemplo, a promessa de não tributação das igrejas e aumento das isenções que já existem), afinal continua a máxima de que a fome de poder de Bolsonaro e a vontade de comer os manjares da terra dos evangélicos é o elo que os une.

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Pois é, a história é a mesma, só mudam os personagens. E o Santo Deus não tem nada a ver com nada disso, nem em 2009, nem em 2019. Deus é Santo, Santo, Santo e não se une à patifaria política.

ADENDO EM 20/05: Ontem o Presidente Bolsonaro postou um vídeo de um “profeta” chamado Steve Kunda, onde ele declara que Bolsonaro é o “Ciro enviado por deus” para melhorar o Brasil. Nesse vídeo, o “profeta” diz que todos devemos apoiar incondicionalmente o presidente, pois essa seria a vontade de deus. Porém, o tal “profeta” se autointitula APÓSTOLO e é chegado na Teologia da Prosperidade, coincidentemente se assemelhando em perfil doutrinário à maior e mais expressa parcela de líderes evangélicos brasileiros que citamos nesse artigo.

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Postagem do Apóstolo (?) em sua conta no Facebook de ato patético (digo, profético) da IEQ, onde ungiram óleo em frente à Casa da Moeda do Brasil para que os fiéis possam receber riquezas.

Neste artigo enfocamos que a espúria relação entre política e religião (em especial os evangélicos) se repete circularmente e os políticos são os únicos que mudam, já que os religiosos são mais ardilosos e sabem a hora de pular do barco, contando sempre com a obediência cega dos seus fiéis e com a consequente falta de memória histórica e de senso crítico. Ou seja, os religiosos são milhares de vezes piores do que qualquer grupo político, pois manipulam pessoas usando do Sagrado. Falamos isso com muita dor no coração, mas é a verdade. No próximo artigo enfocaremos a Teologia da Prosperidade e outras heresias.

Nesses 10 anos, estivemos empunhando faixas com frases de exortação e versículos bíblicos em diversas Marchas para Jesus em várias cidades, além de outros eventos gospel como feiras, festivais, shows. Muitos desses líderes leram as faixas, mesmo fingindo não nos ver, e mal sabem eles que, ao ler a Verdade, seja na forma de faixas, de versículos, de palavras, de pregações, de vídeos, eles tomaram conhecimento da Verdade e isso lhes traz peso de juízo. Que Deus lhes abra os olhos e eles se arrependam enquanto é tempo.

No dia 20 de Junho (feriado católico de Corpus Christi apropriado indevidamente pelos evangélicos) haverá a Marcha para Jesus em São Paulo. Pelo décimo ano seguido estaremos lá, permitindo Deus, portando nossas faixas com versículos bíblicos e exortações. Se você sentir de estar lá conosco nessa inglória tarefa, estaremos a partir das 9 horas no Posto BR na saída do metrô Armênia.

Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

A DEUS toda a honra e toda a glória para sempre.

Um comentário em “10 anos proclamando que o $how tem que parar: o que mudou na relação mundo-igreja evangélica entre 2009 e 2019

  1. Marcos
    28/05/2019

    Vozes clamando no deserto deste Brasil.
    Toda glória a Deus!

    Curtir

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