Uma estrangeira no mundo

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

A mulher sábia não é agredida em sua casa


“Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos.” – Provérbios 14:1

É muito fácil falar dos pastores ávidos por dinheiro. Também é fácil denunciar aqueles que se envolvem com a política buscando seus próprios interesses. Mas como falar daqueles que, no oculto, transformam seus lares em verdadeiros circos de horror de violência psicológica e até física?

É fácil falar da exploração financeira dos fiéis e do seu uso como moeda de troca eleitoral porque as provas são visíveis – embora muitos se recusem a ver. Os (im)pastores abertamente vendem bênçãos, abertamente indicam a seus fiéis qual é o candidato em que devem votar. Mas a violência doméstica não é aberta, ocorre no oculto dos lares, sob a mudez de suas vítimas e o confortável desinteresse da comunidade cristã.

“Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis.” – Provérbios 31:10

Uma pesquisa realizada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie indica que 40% das mulheres vítimas de violência doméstica são evangélicas. É um número assustador, ainda mais quando vemos que, segundo o último Censo – de 2010 -, os evangélicos são cerca de 22% da população brasileira. E, segundo estudos, apenas em 2032 deverão alcançar a marca de 40% da população.

É claro que a pesquisa do Mackenzie não refere a fé professa pelos agressores, uma vez que há evangélicas casadas com pessoas de outras religiões. Mas é sabido que o casamento entre evangélicos é o recomendado em muitas denominações, apelando para passagens bíblicas como 2 Coríntios 6:14, que fala do jugo desigual e que costuma ser interpretada como uma proibição de casamento entre crentes e descrentes. Assim, pode-se supor que uma grande parte dessas 40% de mulheres evangélicas são agredidas por seus cônjuges também evangélicos.

“Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.” – Efésios 5:23,24

Uma coisa consegue unir doutrinariamente igrejas evangélicas tradicionais, pentecostais e neopentecostais: a visão da mulher como submissa ao marido e como responsável pela administração do lar.

Através de uma interpretação bíblica, muitos ensinam a total obediência das mulheres a seus maridos como sendo ordenança divina. Assim, torna-se lícito que o marido tome todas as decisões e a mulher apenas cumpra o que por ele lhe for ordenado, ficando a seu cargo não apenas o serviço externo, sua profissão, mas o serviço da casa. A mulher, dessa forma, pode se tornar uma escrava moderna, se assim seu senhor-marido quiser.

É claro que muitos homens evangélicos sabem tratar suas esposas com o amor e o respeito devidos, pois esses entenderam o que é ensinado logo depois em Efésios 5:25: “Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela”. Assim, quem lê todo o capítulo entende que a submissão ensinada por Paulo (baseada no modelo patriarcal e escravagista da época) diz mais sobre cuidado e amor do que sobre subordinação conjugal.

Infelizmente, há outros homens evangélicos que se utilizam da interpretação bíblica como lhes convém para verdadeiramente escravizar suas companheiras, através de ameaças, do medo e da violência. E tudo isso, segundo sua deturpada e doente visão, como sendo aprovado por Deus.

Vós, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não vos irriteis contra elas.” – Colossenses 3:18,19

A violência contra a mulher assume várias formas, mas as mais conhecidas são as de natureza psicológica e física. Sentindo-se dono da escrava com a qual um dia trocou alianças e promessas de amor eterno, o agressor evangélico é capaz de passar dias ameaçando e maltratando sua esposa e, no domingo, surgir com ela no culto de mãos dadas e sorriso santo no rosto. E ninguém desconfiará de nada, pois é cômodo à comunidade eclesial acreditar que todos os que lá se encontram estão felizes “em Jesus”. E mesmo que a vítima possa tentar se abrir com alguém, muitas vezes será culpabilizada, afinal a mulher tem que orar pelo esposo, Deus pode curá-lo de seu mau comportamento e talvez falte fé à vítima, que precisa perseverar e daqui a alguns muitos anos dar o testemunho da recuperação do seu casamento.

Infelizmente, alguns desses casos aparecem nos jornais com um final infeliz.

“As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem; para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, a serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada.” – Tito 2:3-5

A mulher, nos dias atuais, precisa muitas vezes de trabalhar fora para ajudar nas finanças da casa. Além disso, há os cuidados com o marido e os filhos. É impensável que haja, no meio cristão, homens que se achem os reis da cocada preta, que não ajudam nos afazeres domésticos, que inflingem suas esposas com acusações e outras formas de violência caso não consigam cumprir com toda a carga que lhes é imposta. Isso sim é um jugo desigual. Isso sim é escarnecer da visão de casamento segundo Deus.

“Disse-lhe Jesus: Vai, chama o teu marido, e vem cá. A mulher respondeu, e disse: Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.” – João 4:16-18

É intrigante a mulher samaritana estar em seu sexto casamento, e ainda assim Jesus reconhecer que ela não tinha marido.

E intriga também ver como Cristo relaciona, na Bíblia, Sua Igreja com a imagem de uma noiva. E relaciona Seu amor a ela como o de um noivo à sua noiva.

Disso tudo, não há como negar que, segundo Jesus Cristo, o casamento é a maior das alegrias. É o lugar onde um homem e uma mulher juram amor, cuidado e fidelidade eternos. É um lugar onde até ocorrem desentendimentos, mas todos resolvidos num ambiente de respeito e harmonia. Sim, isso é possível e muitos casais desfrutam de tal relação saudável.

O lugar onde há desrespeito, humilhação, ameaças e violências não se chama casamento. Chama-se prisão, tortura, escravidão. E Cristo veio para trazer liberdade aos cativos, inclusive às mulheres vítimas de agressão.

Infelizmente, há em oculto muitos líderes evangélicos e membros de comunidades cristãs envolvidos no aprisionamento e tortura de mulheres que, por conta de sua fé e de seu pouco entendimento das Escrituras, calam-se diante das perversidades das quais são acometidas dia após dia. Mulheres vítimas de agressão acabam se anulando, perdem a autoestima, podem entrar em estados depressivos, podem morrer em vida.

Em Cristo, a Igreja não pode permitir que casos assim continuem a acontecer. Não pode permitir que tantas mulheres sofram duplamente: pela agressão e por não poderem se defender dela por conta de sua fé.

A essas mulheres: que Deus lhes dê força e a verdadeira sabedoria para que possam se ver livres de seus algozes. Que possam buscar ajuda em pessoas em que possam confiar, ainda que professem outra fé. Que busquem conhecer seus direitos, os canais de denúncia, e que não se calem. Que não permitam que o Mal lhes tire a alegria de viver.

Minha oração é para que Deus abra os olhos da Sua Igreja, para que ela enxergue esse mal oculto, para que possa expulsá-lo do seu meio. O verdadeiro cristão ama a Deus e ama a seu próximo, e não há ninguém mais próximo de um homem do que sua mulher.

Que Deus tenha misericórdia de nós.

Em tempo:

Tipos de violências contra as mulheres previstas na Lei Maria da Penha (fonte: Guia de serviços da Prefeitura de São Paulo – Direitos Humanos e Cidadania)

Moral: calúnia (acusar falsamente alguém de crime), injúria (ofensa à dignidade), difamação (ofender a reputação)

Psicológica: humilha, insulta, persegue, ameaça

Patrimonial: controla seu dinheiro, não te deixa escolher o que comprar, destroi seus objetos, não te deixa trabalhar, oculta bens e propriedades

Física: empurra, chuta, amarra, bate

Sexual: pressiona, exige práticas que você não gosta, se nega a usar preservativo, nega a você o direito a métodos contraceptivos

Central de Atendimento a Mulher – Ligue 180

3 comentários em “A mulher sábia não é agredida em sua casa

  1. marcos roberto do nascimento rosa
    05/07/2021

    É uma triste realidade, pois isto jamais poderia acontecer no meio cristão, mas, infelizmente, acontece com muita frequência.

    Curtir

  2. Paulo Sérgio Longo
    08/07/2021

    A grande maioria dos evangélicos, ao invés de lerem a bíblia e obterem compreensão da Palavra, seguem a interpretação tendenciosa e interesseira dos In-pastores das grandes denominações evangélico/financeiras.

    O pior de tudo é que além de distorcerem a Verdade, ainda a usam para justificar suas taras e neuroses.

    Meu povo perece por falta de conhecimento…
    *Oseias: 4:6*

    Curtir

  3. Diego Gomes
    13/07/2021

    É muito bom voltar à ler uma postagem sua!
    Agradeço pela resposta ao meu e-mail e que a luta que você está enfrentando, seja vencida em breve.
    A Paz!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 03/07/2021 por em Ser estrangeira.
%d blogueiros gostam disto: