Uma estrangeira no mundo

"Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim." – Jo 15.18

Os clubes-igreja fazem acepção de pessoas


“Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas” – Rm 2.11
“Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redargüidos pela lei como transgressores” – Tg 2.9

Ser membro de uma igreja é, muitas vezes, participar de um ótimo clube. Você vai uma ou duas vezes por semana, canta, dança, grita, chora, extravasa suas emoções e ainda ouve palavras de bênção e esperança – afinal, exortação está fora de moda no mundinho gospel, pois afasta membros. Ir a uma igreja muitas vezes se assemelha a uma sessão de terapia, com a vantagem de ser de graça. Minto, não é muito de graça, custa uns 10% do salário mais o quanto estamos dispostos a ofertar, ou melhor, investir, já que esperamos o retorno financeiro a juros de 10, 100 ou 1000. Mas, enfim, é muito mais divertido que ficar deitado num divã, e não nos dá aparência de loucos, e sim de santos, de gente de bem.

O problema de uma igreja se tornar um “clubinho de eleitos” é que, como clube, ela deixa de cumprir uma importante função: a de promover a justiça, sem cometer acepção de pessoas. Promover justiça entre os sócios é fácil e até faz parte do regulamento de alguns clubes ou associações. Os maçons, por exemplo, se ajudam entre si. Da mesma forma, muitos clubes-igreja promovem auxílio aos que fazem parte da turma, quando promovem, pois a função de um clube não é ser casa de caridade, e sim local de entretenimento. Não é à toa que muitos clubes-igreja promovem tantos eventos, acampamentos, shows gospel, retiros: o importante é entreter os sócios, senão eles poderão optar por outros clubes mais interessantes, talvez com piscina ou quadra de squash.

Como em todo o clube, os clubes-igreja crêem que os melhores estão entre seus membros. Bem coisa de adolescente, que se mobiliza em turmas de acordo com seus ideais ou maneira de se vestir, e que entram em disputa com grupos rivais. Assim, os punks se acham melhores que os skinheads, que se acham melhores que os emos, que se acham melhores que a turma do surf, mas no fundo são todos adolescentes com os mesmos problemas existenciais: arranjar uma “mina”, ganhar um carro do pai quando completar 18 anos, ser popular na escola. Como os grupos adolescentes, os clubes-igreja também se consideram melhores e com os melhores membros, os mais santos e donos das mansões celestiais mais bem localizadas, a pelo menos uma quadra do Grande Trono Branco. E, como os adolescentes, um clube-igreja não se importa com os demais, ou mesmo com os sem-clube, os sem igreja, mesmo que as necessidades sejam as mesmas. Muitas vezes, os sócios dos clubes-igreja são até proibidos de se relacionar com quem não é cristão, e aí me vem a mente que Jesus vivia rodeado dos doentes da alma, de prostitutas e de cobradores de impostos, não de fariseus, gente realmente de bem.

Por que estou escrevendo tudo isso? Porque todos os dias vemos pessoas sendo injustiçadas, escravizadas, humilhadas, e nada é feito pela Igreja. Porque volta e meia vou ao centro de São Paulo, mais especificamente à “Rua dos Evangélicos”, Rua Conde de Sarzedas, e me envergonho ao ver que em quase todas as lojas se vendem produtos sem nota-fiscal. Todas as vezes peço a bendita nota, mas em todas sou “enganada” com a entrega de um papelzinho onde se lê “recibo”. Porque, na mesma rua, um pouco abaixo das lojas, está a Baixada do Glicério, um lugar onde imperam a miséria e as drogas, e veja, rodeado de igrejas por todos os lados (inclusive com uma grande catedral evangélica).

Os clubes-igrejas não estão só nas imediações do Glicério, em São Paulo. Estão em todos os lugares, onde nascem igrejas e, anos depois, não se vê nenhuma transformação no lugar, apenas talvez a reforma para a ampliação da própria igreja. As crianças do local continuam sem escola ou creche, os traficantes continuam traficando, as prostitutas com seu trabalho, os ladrões (pé-de-chinelo e os de terno e gravata) continuam com seus afazeres e obrigações. A realidade não muda, o número de sócios aumenta mas nada acontece. Não se vê a conversão do lugar a Cristo, apenas a conversão das pessoas em sócias de mais um clube.

Será que a culpa é das prefeituras, dos governos? Sim, pois se eles se esforçassem para criar espaços de cultura e lazer para o povo, talvez eles não fossem aos clubes-igreja para buscar entretenimento fácil. Talvez, se os governos se esforçassem em garantir condições mínimas de saúde, moradia, educação, trabalho, o local deixaria de ser miserável para ser digno aos seus moradores. Essa é a visão da maioria.

Nós, povo de Deus, infelizmente não somos maioria. Quem disse isso foi o próprio Cristo, ao informar que há dois caminhos, um largo e um estreito, e que pelo estreito não tem como passar muita gente. Por isso fico muito constrangida ao ouvir que “o Brasil será do Senhor Jesus”, como se acontecesse um milagre de desenvolvimento no caso da maioria da população se tornar evangélica. Não há milagres nos pequenos bairros onde há muitas igrejas (eu já vi, juro, 3 igrejas grudadas uma na outra, 3 casas seguidas, isso na Avenida Águia de Haia, em Artur Alvim, zona leste de São Paulo), talvez porque nunca seremos maioria, só no Milênio e olha lá (pois em Apocalipse diz-se que haverá uma última rebelião no reinado de Cristo). E pergunto, de que adianta sermos maioria, se nada fazemos pelos que não fazem parte do nosso clube?

Enquanto o clube-igreja canta, dança, extravasa, chora, ri, dá a paz do Senhor, crianças morrem de fome, jovens se afundam nas drogas e na prostituição, famílias se desestruturam, inocentes se tornam culpados e os índices de violência só fazem subir. Quando a igreja deixar de ser clube fará tudo aquilo que Jesus disse que os que estarão à sua direita no Grande Dia farão:

“Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” – Mt 25:34.40.

6 comentários em “Os clubes-igreja fazem acepção de pessoas

  1. Sergio Dias
    25/11/2009

    Prezada Vera, Estrangeira, graça e paz!

    Parabéns pelo seu blog. Muito bom mesmo. Edificante e direto ao ponto.
    Uma pergunta: posso usar este texto, dos “clubes-igrejas” no meu blog?

    Abraços,

    Sergio Dias

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  2. Edimar
    17/09/2010

    Edimar

    Minha família, até pouco tempo eram Católicos, hoje, 90% são evangélicos, pricipalmente as pesoas que convivo , esposa, filha, irmã, sobrinhos, cunhados. Minha opinião conhecide muito com as suas (estrangeira), me sinto também como um estrangeiro, quando converso sobre religão com meus familiares, tento passar orientações, para que não sejam injustas e que enxerguem os erros que esta sendo cometido dentro das Igrejas. Quanto aos clubes -igrejas que fazem acepçao de pessoas, eu acrescento que dentro das Igrejas as pessoas (crentes) que mais necessitam de ajuda são descriminadas, quando o Pastor, mulher do Pastor faz aniversário ou quanquer outro evento, os membros fazem festa surpresa, enquanto um membro pobre e sem expressão faz aniversário, passa por despercebido. Quando da construição de Templos luxuosos, Masnsão para pastores, carros de luxo, aviões, Tv, Rádios, Editoras, gravadoras e são covocados os membros, além da ajuda financeira e material, muitos ajudam com seu trabalho (braçal), enquanto que muitos de seus membros moram em casebres, como eu prersenciei a pouco tempo quando fui na casa de um membro de Igreja Evangélica, a casa estava escorada, correndo o risco de cair a qualquer momento, onde está ação social da Igreja, são FILANTRÓPICAS, NÃO PAGAM IMPOSTOS é para ser aplicados estes recursos para os necessitados (não só para os evangélicos mas também para os ateus, católicos , espiritas, mendigos, prostitutas e outros), não posso aceitar tamanha discriminação, não sou VACA DE PRESÉPIO, mas temos que combater tais erros, somos autenticos e não abstratos.

    A Paz, a Verdade e a Justiça estajam dentro dos corações CRISTÃOS.

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  3. pedro
    08/07/2012

    É…ATÉ OS QUE PROFESSAM OUTRAS RELIGIÕES: CATÓLICOS, MACUMBEIROS, CANDOMBLESISTAS, BUDISTAS VÃO MESMO CONCORDAR COM ESTAS CRITICAS ÁCIDAS E SEM PRUDÊNCIA, OLHA QUE A BÍBLIA CONDENA A FALTA DA PRUDÊNCIA E DE SABEDORIA QUE AFASTA AS PESSOAS DO EVANGELHO E AS DEIXAM INCRÉDULAS QUANTO AO MESMO. ENTÃO SE AS IGREJAS ESTÃO ASSIM TÃO CORROMPIDAS PORQUE VOCÊS NÃO FUNDAM A IGREJA “PURA E SANTA” ?. MAT. 10.16

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    • Estrangeira
      08/07/2012

      Na verdade, já existem muitas igrejas que pregam a Verdade, sem vender um deus mercenário, sem buscar riquezas para a congregação ao invés de prover os necessitados. Glória a Deus por essas igrejas, firmadas verdadeiramente na Rocha que é Cristo. Que as demais busquem a Verdade, para que os que professam outras religiões deixem de se escandalizar com as péssimas notícias vindas de lideranças gospel atualmente.

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  4. Sandro lúcio
    12/07/2012

    Não existe igreja pura e totalmente santa por que ninguém e perfeito, com relação a Clubes igrejas realmente chegamos ao fundo do poço, as pessoas do mundo la fora nos veen dessa maneira e o que é pior, acreditam que uma boa parcela dos evángelicos são carentes….

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  5. ainda tem muitas igrejas que pratica o que Jesus ensinou

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Publicado às 19/04/2009 por em Ser estrangeira e marcado , , , , .
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